O longo caminho da qualidade hospitalar

 

Caio Martins, coordenador do Comitê de Qualidade e Segurança e responsável técnico do Laboratório de Análises Clínicas do Hospital Dona Helena

A grande maioria das organizações de saúde compartilha o objetivo de alcançar um padrão de qualidade elevado e uma cultura de segurança forte, como parte de sua missão para melhorar a qualidade da assistência a seus pacientes/clientes e para apoiar os profissionais na realização de um trabalho cada vez mais eficaz, eficiente e seguro. Entretanto, esse é um processo difícil. É preciso muito trabalho e disciplina para envolver e comprometer toda uma equipe na construção da cultura de qualidade e segurança.

Em primeiro lugar, as metas de melhoria da qualidade e segurança e, consequentemente, redução de danos ao paciente devem ser incorporadas ao processo de planejamento estratégico da instituição. Em segundo, todos os esforços devem estar voltados em “aprender em vez de culpar”. As falhas/erros devem servir como a base para um processo de aprendizado, melhoria continua e desenvolvimento. A cultura da culpa deve dar espaço para a cultura da responsabilidade e do aprendizado.

Líderes, comitês e comissões de qualidade e segurança devem se envolver no processo. Um artigo do portal “Trustee Mag”, revista dedicada a abordar a atuação nos níveis estratégicos, com foco em conselhos de administração, ressalta que “as gestões mais eficazes dedicam uma parte significativa de cada reunião da diretoria para falar e discutir qualidade e segurança”.

Outro passo importante é entender e definir qualidade e segurança em saúde. Existem vários “gurus”, e cada um deles tem dado a sua contribuição. Uma das definições de que mais gosto é: “Qualidade é o grau em que os serviços de saúde aumentam a probabilidade de resultados desejados e são consistentes com o conhecimento técnico atual” (IOM, 2001). Segurança do paciente é a redução, a um mínimo aceitável, do risco de dano desnecessário, associado ao cuidado de saúde prestado, e cultura de segurança de uma instituição é o produto dos valores individuais e de grupo, atitudes, percepções, competências e padrões de comportamento que determinam o compromisso e uma capacidade de gestão de saúde e segurança.

A segurança do paciente é uma grande preocupação em todos os sistemas de saúde. Estudos estimam que um em cada 10 pacientes internados em países desenvolvidos será vítima de um evento não intencional, sendo que, destes, 50% podem ser evitáveis. Segundo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a segurança do paciente, uma boa prática está no envolvimento do paciente na sua própria segurança. Sempre que possível, envolver seus familiares e acompanhantes nos esforços para a prevenção de falhas/erros e possíveis danos durante a prestação da assistência. O paciente deve ser o ponto central d o nosso trabalho. Toda a equipe multiprofissional, junto com a alta diretoria, devem estar cientes e comprometidos. Quando é envolvido, acolhido, ouvido e estimulado a participar de seu cuidado e tratamento, ele deixa de ser um simples recebedor passivo de cuidados e passa a contribuir para o sucesso do tratamento proposto.

Quando uma instituição de saúde utiliza a palavra Qualidade como um de seus valores, precisa ela ter em mente que qualidade deve ser um substantivo, ou seja, deve ter nome próprio. Qualidade não pode ser um adjetivo (Serapião, 2017). Um sistema de saúde que preza pela qualidade de seus serviços precisa elencar alguns critérios, e entre eles alguns são imperativos. Segurança, eficácia, cuidado centrado no paciente, acesso ao cuidado, eficiência e equidade. A Qualidade na saúde tem na segurança da assistência prestada um dos seus pilares. É um desafio mundial. Afinal, hoje a medicina é mais avançada, mas também é muito mais insegura.

Em resposta a tudo isso, o nosso hospital buscou na certificação pela ISO 9001:2015 e na Acreditação pela JCI (Joint Commission International) apoio e suporte necessários para a qualificação cada vez maior de seus funcionários, parceiros e equipe multiprofissional, procurando envolvê-los nas ações de segurança do paciente. Para conduzir toda esaa estrutura de qualidade e segurança, o hospital conta com o SIG (Sistema Integrado de Gestão) e o CQS (Comitê de Qualidade e Segurança), sendo que este comitê incorpora as ações do NSP (Núcleo de Segurança do Paciente).

O paciente pode sentir e perceber o impacto real de todo esse arcabouço voltado para a prática de uma assistência segura. Entre as várias ações desenvolvidas, o paciente consegue facilmente perceber as seis metas internacionais de segurança. Identificar corretamente o paciente, melhorar a eficácia da comunicação, melhorar a segurança dos medicamentos de alta vigilância, garantir a cirurgia segura, reduzir o risco de infecções associadas ao cuidado e reduzir o rico de danos aos pacientes resultantes de quedas. Qualquer paciente que ande pelo nosso hospital irá receber e perceber o cuidado com a identificação correta pela conferência da pulseira afixada no braço. Da mesma forma, perceberá o cuidado na lavagem das mãos, uma das medidas mais simples e eficazes para reduzir o risco de infecções associados ao cuidado. A atenção voltada ao risco de queda pode ser facilmente percebida pelo paciente com a avaliação feita e a fixação da pulseira cor pink em seu braço e todo o cuidado tomado pela equipe multi a partir de então.

Tem uma máxima que diz “só se consegue melhorar aquilo que se consegue medir. O que é medido é feito. Hospitais devem ter metas específicas e mensuráveis (SMART) para melhorar a qualidade e a segurança da assistência prestada e, se não eliminar, pelo menos minimizar danos ao paciente. De maneira ideal, o desempenho deve ser monitorado mensalmente, e para algumas áreas os indicadores devem ser criticamente analisados pelo CQS. As áreas críticas de dano ao paciente incluem, além das seis metas internacionais, pelo menos eventos relacionados a medicamentos, infecções do trato urinário associada a cateter, infecções da corrente sanguínea associada a cateter central, úlceras por pressão, TEV, complicações associadas a ventilação mecânica. Os pacientes podem evidenciar todo esse cuidado no decorrer das várias etapas da assistência prestada.

Em vez de analisar um indicador e identificar tendências, o CQS utiliza algumas estratégias para ajudar a eliminar danos e transformar a experiência do paciente em algo muito positivo. O monitoramento pelo CQS incentiva a discussão sobre estratégias de toda a organização para eliminar os problemas e alavancar soluções. Os debates entre o comitê, gestores, lideranças e a diretoria se concentram para garantir a transparência; envolvimento dos médicos, pacientes e familiares; incentivar o trabalho em equipe; alinhar os processos e apoio as lideranças; e reduzir as disparidades entre as equipes no atendimento.

Fazemos muito, entretanto, este é um longo caminho. Uma jornada sem fim e para tanto acreditar que é possível é o mais importante. É preciso sonhar e ousar. E para transformar este sonho em realidade é preciso manter a disciplina. Ela é a única ponte que ligará nossos sonhos à realidade.

 

 

 

 



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